Senhor-Escritor

I
O Bosque

Ao pobre infeliz desta história, o nosso protagonista, os únicos momentos de verdadeiro prazer eram os que se passavam no trabalho, onde era capaz, por exemplo, de contemplar um som agradável como o do cantar de passarinho ou do murmúrio de uma corrente gentil de água. Em seus dias de descanso era para lá onde levava sua família para um passeio: ele trabalhava como vigilante do bosque. Um dos raros casos onde se pode dizer que “pão e circo” se apresentam no mesmo ambiente. O trabalho para ele nunca foi cansativo porque se sentia vigorado na crueza melancólica – como ele mesmo chamava – da vida natural. Nos dias que chegava em casa e era recebido pela torrente imparável de vozes femininas em sua cozinha, do pessoal do grupo de teatro de sua esposa, ou quando nesses mesmos dias sentava-se em sua poltrona para assistir um documentário sobre a selva e as crianças – das amigas de sua esposa, certamente – corriam ao redor da televisão mesmo depois de terem sido advertidas, o pobre infeliz desejava voltar ao único lugar onde se sentia pertencido e em paz: O bosque. É verdade que ele bem poderia ter mais firmeza para controlar a situação na casa, mas sempre odiou ter que ser ríspido para fazer o bom senso ser cumprido. Era sempre taxado como o errado nessas situações. Além do mais, aquela algazarra na casa fazia bem à sua esposa de alguma forma. Era importante – inoportuno –, inegociável para ela. E apenas duas vezes na semana. Dava pra levar.

Em um momento daquele mês, sua casa estava cheia e barulhenta. Resolveu, para ter paz, ir à sua floresta ler ao ar livre, sentir a brisa gélida, coletar frutas frescas, beber água pura. Explorar cogumelos. Só que desta feita, já no meio da mata (e ir tão longe naquele local era proibido para visitantes e até mesmo para  funcionários de sua categoria), próximo do córrego, encontrou esse ser que permanecia inerte alguns metros à sua frente. A priori julgou ser um homem bem baixinho, mas depois de colocar seus óculos viu a criatura correr com suas perninhas animalescas em direção às árvores, percebendo assim estar perante uma figura estranha, talvez mística, mas nada assustadora. Num impulso, como fazem as pessoas entediadas atrás de um estímulo que possa dar cores ao seu dia, perseguiu aquele animalzinho mata adentro, rumo à escuridão.

Os raios de sol não mais alcançavam o solo naquela parte densa e selvagem. A impressão era de que a qualquer momento surgiria de surpresa um assassino maluco ou um animal faminto. Uma pequena bruma prejudicou o campo de visão e ele cogitou retornar por estar desprevenido, até que ouviu pisos rápidos quebrarem as hastes das plantas ao leste. Concluindo ser a criaturinha, caminhou furtivo, lento, para que não a assustasse. 

Admirava a fisionomia daquele ser; parecia um castor, mas também parecia um humano. Tinha trejeitos de mamífero e pelagem de roedor. Suas mãos eram contornadas como a de um homem; ainda assim peludas. Dentes como os de um esquilo, porém olhos inquisitivos como de gente curiosa. A criatura estava imóvel enquanto lentamente o homem se aproximava, observando-a. A cinco passos de distância ele teve coragem de perguntar, como se falasse com outro de sua espécie: “prazer, meu nome é…”, mas a criatura assustou-se e repentinamente correu para mais ao fundo da mata sem sequer ouvir a frase por completo.

“Ora, que tipo de animal é esse que encara e logo depois foge sem mais nem menos? Acaso é um bicho desconhecido, ou sobrenatural?” Ele refletia. “Se for coisa ainda não descoberta então qual a razão de aparecer logo para mim? E por que fugir se me entendia e até me esperou!?  Não posso voltar agora. Não sei o nível de periculosidade em qual estou me metendo, mas ficaria envergonhado aos olhos de Deus caso fugisse da resolução de um enigma que apareceu para mim, logo eu, aficcionado pelas criações naturais. Eu acho que aquela criatura havia me entendido quando falei. Vamos lá, você consegue. Vamos.”

Respirou fundo e, devagar, adentrou mais uma camada do bosque. A luz natural já era escassa e a lanterna do celular não era eficiente o bastante. Mas não demorou muito para ver algo amplo, como uma casa, se acender logo à frente em tom laranja fosco. Lentamente, examinando bem o solo onde pisava, caminhou para a luz até vê-la se desabrochar por completo. Assombrou-se vendo um alojamento destacando-se solitário naquelas profundezas, contornado por fachos de luzes baixas, melancólicas. Desviando-se de seu propósito, ou talvez não, como ele mesmo pensou, subiu os degraus que separavam o alojamento do solo e bateu na porta. O único som que se ouvia naquele instante era o dos mosquitos agitando-se ao redor da luz e o coro dos insetos da mata. Bateu novamente até que ouviu uma voz adolescente pedir para que aguardasse um momento. Quando a porta se abriu lá estava o castor, o objeto de sua curiosidade, em sua frente; mas dessa vez estranhamente maior; parecia mais humano que roedor dessa vez. Havia o tamanho de uma pessoa normal. Esse “castor humano” disse:

“Ah, então você chegou. Pai, o Senhor-Escritor chegou.”, dizia, impressionado, com olhos arregalados e evitando mostrar um contentamento que já transbordava de seu rosto.

“Está esperando o que para mandá-lo entrar? Vamos, logo todos estarão aqui também!”, disse ao fundo uma voz desgastada, nitidamente mais antiga, porém acolhedora. Então a criatura vista no bosque, a pequenina, mais bicho do que gente, apareceu minúscula sob a porta. E disse ao homem: “Seja bem vindo!” 

II
Os animais

O sobressalto repentino do pobre infeliz desta história logo acabou, quando viu a criatura híbrida falar o idioma humano alto e claro. Parecia que, após ouvi-la, a parte “fantástica” não mais o espantava: era um dos seus, afinal de contas. Desta feita tomou a iniciativa de conversar – perguntar – enquanto dobrava um corredor, já sendo conduzido para dentro do alojamento pelo que parecia ser um pai, minúsculo, e um filho.

“Espera aí… você me chamou de Senhor-Escritor? O que diabos está acontecendo aqui? O que é você? Por quê você saiu correndo como um animal selvagem aquela hora…”, e uma torrente de outras indagações de uma só feita.

“Calma lá, vamos por partes senão vou enlouquecer também! Quem fica como um lunático escrevendo em paredes é você, não eu, então não venha me deixar maluco como você!”, disse o castorzinho enquanto abria o caminho com passos seguros e ainda assim, como sempre, rápidos.

“Mas do que você está falan-”, e antes de terminar mais uma de suas perguntas, ao dobrar outro corredor, perdeu o fôlego vendo o que parecia ser o salão principal da estalagem. Era maior do que imaginava. “Por qual razão é bem maior por dentro do que por fora?”, e não só isso. O salão era como uma biblioteca. Pequenas estantes –para que humaninhos, ou castores, pudessem usar com facilidade – enfileiradas de ambos os lados, recheadas de livros, fazendo com que ali já não se sentisse o cheiro do bosque, apenas o cheiro morno de livros antigos. No meio do salão o tapete vermelho convidava a passagem. Acima, um lustre repleto de velas que iluminavam o ambiente por completo. Ao fundo findava o salão o que parecia uma cafeteria: cozinha inglesa, mesinhas e cadeirinhas, xícaras à mostra e guloseimas envidraçadas. 

“É uma bela biblioteca, não acha? Que tal tomarmos um café? Assim respondo todas as suas perguntas. Vamos, acolá. “ 

Então atravessaram aquelas monumentais estantes de conhecimento. Sentaram-se; a criatura maior e mais jovem, o castor humano, preparou café da maneira que fazem os escoteiros e peregrinos:
“Arábico. Não há erro, não é mesmo, pai?” 

“Esse é meu garoto. Está muito aprazível.”

Após  alguns goles, o castor respondeu às perguntas do pobre infeliz.
“Eu tive de ter certeza que era você quem procurávamos.”

“O quê?”

“Lá no bosque, quando eu não disse uma palavra. Queria saber se você teria a audácia de vir me procurar. Só o Senhor-Escritor teria a ousadia inquisitiva de procurar um diabo de um castor falante. Ah, o nome!” Respirou fundo. “ De acordo com a profecia do texugo, um jovem capaz de traduzir os sentimentos da natureza seria o responsável por escrever a história de nosso bosque e de nossos animais. E de acordo com o texugo esse homem seria chamado de Senhor-Escritor. Para que o mundo um dia saiba das nossas histórias, saiba que nós podemos conversar, mas não é com qualquer humano de meia tigela que abriremos o bico.”

Desnorteado com as informações que acabara de receber o homem fez uma negativa com a cabeça e respondeu, tentando encaixar as informações de forma coesa:

“Espera, o que? Nunca escrevi nada, que história é essa de gambá vidente?” E desabou em gargalhada por alguns segundos enquanto o castor saboreava o seu café de maneira inexpressiva.
“Homens, Senhor-Escritor…”, e levantou em direção aos livros. “não conseguem simplesmente ver um animal falante, ou uma biblioteca encantada no meio da floresta. Por que você acha que está aqui? Você veio no dia e na hora exata que o texugo previu. Ele só não disse que você seria tão estúpido ao ponto de entrar nas profundezas do bosque de forma instintiva, correndo perigo, atraído apenas por uma curiosidade. E gambás, senhor, não são texugos.”

Enquanto seguia o animal que pegava um livro de uma estante à esquerda, findo o café, perguntou.

“E onde está esse tal texugo?”

“Morreu depois de profetizar. Seu funeral foi hoje pela manhã e daqui a pouco quando anoitecer, os animais virão para confirmar o cumprimento da profecia. Para verem com os próprios olhos que você existe. E então cada um contará uma história para que você possa, depois, mostrar ao mundo.”

“Mas tenho que ir para casa, minha esposa logo vai ligar. Precisaria dar aviso prévio a ela. É o que se faz quando se é casado, antes de passar a noite em algum lugar, até mesmo se esse lugar for seu lugar de trabalho!”

O castor sorriu, triunfante.

“Ah, você não vai querer ir embora! Os animais vão te procurar e te arrastar de volta para cá se souberem que você está fugindo. Há quanto tempo eles não querem se expressar para a humanidade! Fique apenas esta noite, Pierre.”

“Até meu nome você sabe. Mas como?” Impressionado, curioso, convencido, não hesitou em ficar no alojamento para entender o que aconteceria nas próximas horas. O castor finalmente encontrou o livro e a página que procurava enquanto conversavam, depois do café. 

“Aqui está. Leia a marginália da página 342. Foi escrita por um homem da sua espécie, há muito tempo, quando tivemos a sorte de ter sua visita. Nossa primeira visita.”

O Senhor-Escritor leu em voz alta:
‘Se um homem, algum dia, adentrar à biblioteca, mostre isto a ele, querido castor. Eu, que imaginava cinco ou seis coisas impossíveis já antes do café da manhã, também não acreditei que os animais poderiam ter um mundo oculto tão vivo, tão fascinante como agora este se apresenta a mim. Parece que somos os verdadeiros tradutores, não… verdadeiros escritores e guardiões, da história deste bosque. Aproveite e aprenda com os bichos, porque esta será a primeira e última vez. Apenas ouça as histórias! Lembre-se que mundos luminosos existem fora do conhecimento humano. A luz não veio do homem e de suas criações tecnológicas. É importante lembrar que ela existe desde sempre!
Sua,
Vivian Turchel’

“Espera, essa é a Vivian Turchel? Acho que conheço esse nome. Vejamos… ah, me lembro! Ela é considerada a maior escritora de fantasia de todos os tempos, agora há pouco estava com um livro dela em mãos mas deixei cair quando estava te perseguindo e só agora percebi. Era um livro sobre relação parental numa prisão encantada, algo assim. E o preso era o próprio escritor!”, disse, impressionado.

“Sim, temos todos os livros dela por aqui. Bem, não importa como conseguimos, ou como construímos esta biblioteca, imagine tudo isso como um mundo à parte por enquanto. O fundamental é que você conheça os animais, só teremos tempo para isso. Eles vão ficar realmente impressionados com sua presença, garoto.” Ouviram uma batida na porta. Chegavam na casa, de uma vez, os animais do bosque.

III
O Legado de Vivian

Do lado de fora estão cobras, aves, lobos, coelhos, macacos, etc. Eram mais de trinta, de várias espécies. A floresta estava mais escura do que nunca vista de dentro da casa para fora. Ao entrarem, vibraram com a presença do humano, perderam o fôlego e os animais mais velhos anunciavam um quase-desmaio de emoção, além de ficarem o tocando para ver se era de verdade. Bradavam coisas como “o texugo estava certo”, ou “Deus sempre sabe o que faz”, “ele realmente consegue nos entender!”, coisa e tal.
Agora o castor guiava todos ao corredor oposto daquele que levava à biblioteca; dobraram aqui e acolá até chegarem em um outro salão circular, igualmente grandioso. Havia uma lareira para aquecer todos, cobertores, um tapete também circular ao redor do salão e cadeiras, mesas e poltronas, para que todos se sentissem confortáveis da maneira que melhor lhes contentasse. Por alguns minutos o pobre infeliz de nossa história deixou de ser o centro das atenções: é que os animais não se viam há muito tempo e aproveitaram para colocar os assuntos da floresta em dia. Alimentavam-se, gozosos, de bebidas e comidas trazidas volta e meia pelo castor adolescente. Até que o assunto geral se esbarrou no primeiro humano a visitar-lhes e escrever as histórias dos seres da mata.

“… pois é, fico pensando como ela, apesar de tudo, era tão sorridente. Você contou para este garoto sobre a Senhora-Escritora?”

“Sim, sim, ele leu uma das anotações dela.”

“Garoto, você também se sente como ela?”, disse uma das aves.

“O que você quis dizer com isso?”, ele respondeu.

As aves se entreolharam. “Ora, acho que o castor não contou tudo apropriadamente. Vivian Turchel é como uma heroína para nós. Ela só chegou nessa floresta por se sentir solitária no meio dos seus. A humanidade é vasta, existem muitos exemplares de homem, de mulher, mas poucos, dizia ela, possuem uma consciência genuína. Qual foi a palavra que ela usava mesmo… é isso: estereótipos grupais.” terminou a ave. E então começava um dos coelhos:

“Ela não se encaixava, nossos avós sempre a viam por essas matas. Era como se, na sua visão, os humanos tivessem perdido a alma, a capacidade de se apaixonar incondicionalmente por algo ou por alguém. Ela conversava com outros de sua espécie, naturalmente. Mas, dizendo ela…” e então o coelho passou a mão em suas orelhas, como se, por vaidade, as organizasse: “a verdadeira vida estava no bosque, na verdade dos animais. E então, um dia, ela ouviu duas tartarugas conversarem e passou a falar com elas, do mesmo jeito que um outro animal, naquela época, havia previsto sem mais nem menos e até virou chacota nas redondezas por essa previsão sem cabimento. O nosso mundo virou de cabeça para baixo nessa época. Era como se um extraterrestre houvesse pousado na Terra.”

“Eu sei como é se sentir só”, disse o homem, “não precisamos estar espacialmente sozinhos, mas faz falta uma pessoa para conversar de igual para igual, com um perfeito balanceamento, sobre sentimentos e ideais nobres, como se te completasse. Essa questão não é uma qualidade ou um defeito, é apenas a necessidade espiritual, intelectual, de algumas pessoas. Talvez ela sentisse falta deste tipo de diálogo. No entanto, não dá para simular essas demandas do espírito com alguém que você gosta mas que não se encaixa nesse papel, só para que essa pessoa se sinta parte especial das suas necessidades. Ou para você se sentir satisfeito. É egoísta e ineficiente.”, ele disse. Por fim, concluiu: “Ela falava com os animais, assim como faço agora. Que coisa mais louca. E era uma escritora? Deveria ser uma mulher e tanto.”

“Neste livro, veja, Vivian fala que, para sobreviver no mundo atual, um homem precisa dessensibilizar sua alma para hipersensibilizar a máscara, o lado social,  que é sua parte menos nobre. O que ela quis dizer com isso na sua opinião?” Disse uma coruja, com um livro em mãos, ao pobre humano.

“Talvez que, para ela, é preciso ser farsante com as pessoas para nos darmos bem no mundo. Um estímulo rápido, comum e colorido, que venha a suprir seus desejos imediatos é mais querido às almas dessensibilizadas do que, por exemplo, uma composição refinada e bela em todos os sentidos, uma que fale com suas necessidades mais fundamentais e as supra. O certo seria hipersensibilizar o que importa, o nosso interior, e dessensibilizar a nossa máscara, artificial, que só importa por uns instantes fúteis. Esses dispositivos como este no meu bolso, por exemplo, são benéficos e efetivos para a máscara, mas horríveis ao espírito!”, ele falou e sacou do bolso o celular. Todos os animais resmungaram em horror, alegando que sabiam o que era aquilo.

“Guarde isso, temos pavor dos sons e do brilho emitido pelos tais smartphones!”, disse o castor. O homem pensou, confuso. “Ora, os animais do bosque conhecem e chamam celulares de smarphones!”, e sorriu consigo mesmo. “Veja só!”. Depois disse:

“Eu entendo Vivian, aos homens mais antigos era de mais valor a vontade e os desejos da família. Fazíamos tudo pelo bem dos nossos queridos parentes, amigos e amores. Hoje em dia temos que nos submeter ao bem maior, que é a sociedade inteira, mesmo que não tenhamos ligação nenhuma com parte dela. Porque os gostos e as necessidades dessa dita sociedade são fabricados de acordo com os desejos de um grupo bem específico de pessoas, não é nada natural. Como poderia a sociedade querer de forma homogênea uma só coisa se esta coisa não fosse um desejo fabricado?  Nada mais é natural como um bosque, as árvores, o céu e vocês. Até a nova moralidade é artificial, e somos submetidos a tudo isso para nos mantermos em sintonia com essa mesma sociedade pré-fabricada. Sinto como se as relações humanas estivessem todas deterioradas e que não há mais conserto.”

“Ele é como Vivian!”, disse a avó tartaruga. E então continuou: “Garoto, Deus fez os animais de forma que eles não possam se comunicar com os humanos por meio de relação inter-cognitiva. Acredito que Ele fez isso para conservar nossa integridade como parte pura da natureza. Mas os homens… estes eu também não entendo.” Em seguida, enquanto parava para refletir, o castor voltou a falar.

“Vivian também se sentia perdida. Ajudando ela nós também nos ajudamos. Nossa biblioteca está repleta de histórias que nós lhe contamos para que ela transmitisse ao mundo, histórias que voltaram a nós como livros, e temos muito orgulho disto. Contos que aliviaram o peso existencial de todos nós e que lhe mostraram principalmente que não está sozinha. Gostaríamos de contar para você, um por um, pequenas histórias novas sobre o que aprendemos com a vida, com a natureza, com as relações interpessoais. O nosso objetivo é que você possa nos representar escrevendo belos livros sobre o que você aprenderá hoje. E no futuro, é claro, todos nos beneficiaremos com isto. Será que você está preparado para essa experiência única?”

Foi trazido-lhe então mais uma xícara de café, uma caneta e um caderno para que anotasse. O pobre homem deu uma golada em seu café e respondeu:

“Com todo respeito, esses smartphones, como vocês dizem, são terríveis, certamente, mas eles podem ser usados para recordar a voz e o som de um ser. Usarei para gravar as histórias e, mais tarde, começar a escrever. Afinal, se ouço e falo com animais, só posso ser o Senhor-Escritor de vocês, não é? Deixemos tudo organizado.”

Consentiram. Aquela foi uma noite assaz proveitosa para os animais e para ele. Cada animal contou uma história e todas foram registradas no celular. Sorriram, choraram, refletiram, suspiraram. O mais importante é que o homem aprendeu com cada um dos animais do bosque naquela noite. 

O dia já amanhecia quando todos caíram a dormir no próprio salão. Livros por cima dos corpos sonolentos, pratos sobre as mesas e o agradável barulho da lareira com seu fogo formavam a cena daquele salão, na aurora. Já de manhã o castor acordou todos e anunciou que era hora da partida.

“Foi uma ótima noite, meu querido. Infelizmente não mais nos encontraremos, o próximo humano virá daqui, talvez, duzentos ou trezentos anos. Essa é a regra da manifestação fortuita.”, disse o castor, com um semblante contentado.

“Por quê”, o homem disse.
“Porque é assim.” , disse o castor, sorrindo e erguendo suas mãozinhas ao homem. “Adeus, Senhor-Escritor. Faça sua parte.”

“Adeus.”

IV
O Senhor-Escritor

Os raios solares que vêm da janela quadrada, minúscula, batem diretamente em seu rosto enquanto um homem de traje branco, largo bigode e monóculo o cutuca.

“Ei, você está acordado? Já se passaram oito horas, acorda.”

O pobre infeliz de nossa história, desnorteado e com muito sono, se sentou no banco de madeira que era  sustentado por correntes de aço. Ele olhou em volta e fez muitas perguntas a si mesmo. Estava incerto da situação ao seu redor: parede de pedra, banco de madeira, uma janela que refletia o mínimo de luz possível e, do seu lado esquerdo, grades. Muitas grades. Era o que via à primeira vista. “Onde estou?”, ponderou.

“Está acordado, Pierre? Você parecia uma estátua dormindo. Tá tudo bem? O que achou dos cogumelos? Surtiu algum efeito? Viu algo diferente?”

“Do que você está falando? E onde estou?”, então procurou o celular nos bolsos.

 “Preciso ligar para minha esposa. Ela deve estar preocupada, hoje eu tinha que levar meu filho à escola. Por que essas grades? E quem é você?”

Ele levantou-se enquanto fazia suas perguntas, procurando um jeito de sair dali, e sua ansiedade foi aumentando gradualmente enquanto falava. Tentou sair do portão daquela espécie de cela e silenciou quando não conseguiu. “O que estou fazendo aqui?”

“Sou seu médico…”, suspirou o homem de traje branco. “Toda semana será assim, Pierre? Fico me perguntando isso. Estou começando a desconfiar dos meus próprios métodos.”

“Médico? Onde está minha esposa, onde está meu filho?”, o desespero já começava a ser nítido em seu tom de voz, como o de alguém que descobre uma enfermidade e não sabe lidar com as questões de vida e morte.

“O seu filho…”, era sempre muito difícil ao doutor repetir  que não havia filho nenhum. Ele imaginava o desespero que recomeçaria na mente do pobre infeliz quando descobrisse que não era pai. 

“E por que eu estou aqui?”, dizia, agachado apoiado nas grades e em soluços.

“Você só precisa ficar longe da literatura por um tempo. Isso está te deixando insano, Pierre. Que ideia é essa de Senhor-Escritor? Você costumava ser um vigilante ambiental.”, disse. Era sempre a mesma história. Antes de sair da cela finalizou para o espanto e incredulidade do pobre infeliz:

“Eu recomendo que você comece a refletir bastante no seu tempo isolado, Pierre. Não fraqueje. Tentamos de tudo nesse último mês. Só com uma melhora significativa você poderá ver Vivian novamente. Desista dessa história de escrever, de ser escritor. De ter algo único e grandioso. Não faz mal ser simples. Eu diria até, me desculpe pelas duras palavras, que não faz mal se rebaixar um pouco para corresponder às expectativas daqueles que nos amam. Desista dessa história. O café chega em alguns instantes.”, e saiu balançando a cabeça em sinal de frustração. Do lado de fora da cela o doutor ainda disse: “você vai escolher a arte ou o amor?”.

Embaixo do banco onde geralmente cochilava e sentava para meditar, havia um pedaço pequeno de madeira, justamente apartado, à força, deste mesmo banquinho. Pegou como num instinto, como se soubesse o que fazer, e olhou para a parede à sua frente. Havia apenas um espaço vertical em branco, na direita, de cima a baixo. O resto estava todo rabiscado com a mesma frase. Sem titubear, completou o espaço vertical restante da parede com a justa frase, escrevendo com seu pedacinho de madeira. A frase indicada pelo doutor. A indicada pelo seu coração:

Desista de escrever.

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