Vida em Outro Mundo

I

Tenho para mim que o paraíso, o destino final dos humanos de bom coração, sendo sublime, não pode ser exatamente imaginado. Isto é, nada do mundo captado por nossos sentidos pode representar fielmente a beleza de ser salvo em graça eterna. Somos limitados e não podemos imaginar Deus, mas podemos traduzir os termos celestes para nossa realidade da mesma maneira que traduzimos um livro, por exemplo.

Veja bem, a tradução é como se fosse Velázquez retratando em quadro seus modelos: uma representação que tenta nos passar a aura daquela pessoa e daquele momento, porém por mais fiel que seja a obra ela nunca será adversária à altura da realidade, esta que pulsa e se transmuta a todo momento. Assim também é quando retratamos Deus com nossos pincéis humanos: apesar de darmos nosso melhor e de fazermos um excelente serviço, ainda não é condizente com o ser em si. De qualquer forma arquitetamos teses e retratamos o desconhecido da melhor maneira que conseguimos a fim de dar razão aos atos, tal como o artista que cria para dar sentido ao quadro branco, ou ao mármore, ou ao papel. Naturalmente, dei forma ao meu céu.

Compõe o meu céu o que há de mais regozijante no mundo dos sentidos: um sol ameno. Estamos numa espécie de pampa em pastagem verde, bem viva, e com animais de toda espécie pecuária; ao fundo vemos um lago de onde, decerto, se emite esta brisa que sentimos enquanto fazemos uma oração agradecendo. Toda a minha família que conheci em vida também se encontra aqui: pais, tios, primos e avós. Brincando conosco estão alguns animais e entre eles, a minha inofensiva, falecida, cadelinha, que me seguia por onde quer que eu fosse no paraíso. Minhas avós lembravam de histórias do passado enquanto todos, de um modo geral, celebravam aquele encontro. Abraço e cumprimento dizendo muito que os amo. Por mim, em eterna graça, esquecendo-se de todo o resto, poderiam ser assim todos os dias no paraíso. Há também uma pessoa que sempre imagino lá neste Olimpo da minha mente, mas só consigo a imaginar de longe, acenando para mim. Tirando seu vestido branco e cabelos ondulantes tudo nela é fosco. Toda vez que imagino, ela continua ao longe. Quando imagino sua face só me vem à cabeça os traços da Carmen, mas esta nunca vi pessoalmente para dizer com exatidão se a garota é ela ou não.

Pois ontem, dia 14, tive uma pequena sensação — conturbada e imperfeita — do paraíso. É que meu irmão mais novo formou-se. Tenho muito orgulho de ver o crescimento dele como homem. E depois de uma década de intrigas a família reuniu-se novamente para prestigiá-lo. Dissemos antes que seria um compromisso de festejo e que não seriam admitidas brigas nesta data e assim procedeu-se: minhas avós riam de gargalhar com gracejos sobre o passado e me pareceu nem cogitarem a ideia de discutir sobre a separação de meus pais, como sempre fizeram, dividindo assim a família; afinal, até mesmo meus pais aprenderam a superar as desavenças. Meus tios, primos maternos e paternos sempre se gostaram, porém, em respeito aos seus respectivos familiares, não mais se falaram em todo esse tempo, mas tudo veio para mudar nessa celebração. Durante o dia tentei manusear as interações sociais de modo a entreter meus convidados, mediar e contornar os diálogos para que não nos desviássemos em direção a um assunto que prejudicaria a reunião.

Entre congratulações e presentes meus familiares perguntavam-me sempre sobre quando me formaria e minha situação acadêmica, visto que estou há mais tempo na faculdade e sou alguns anos mais velho que meu irmão. Aquela pergunta me doía profundamente, mas sem perder a compostura leve das faces eu respondia com gracejos, dizendo coisas como “é tempo de vacas magras” ou “agora finalmente estou me preparando para me formar”, mesmo sem estar estudando há mais de seis meses. Ao final do dia ainda houve uma partida da seleção brasileira contra a Argentina e todos nós, já ébrios, torcemos e cantamos como se estivéssemos em um estádio de futebol. Apesar da derrota trágica por goleada aquilo não chegou nem perto de prejudicar o melhor dia da minha vida. Quem diria que, assim como no meu paraíso, eu veria todas as pessoas que amo reunidas em um só lugar? Ajudei minha mãe e meu padrasto na limpeza exaustiva da casa e, já de madrugada, quando todos há muito já estavam em seus lares, liguei o computador. Dentro de mim, devido às circunstâncias do dia, crescia uma expectativa de que ela finalmente daria algum sinal de vida. Entrei como sempre naquela bendita conversa e fatidicamente li, com as dores da primeira vez, a mensagem que preludiava nosso chat: “Visto pela última vez às 02:50 do dia 20/10”.

É isso. Carmen desapareceu para sempre e terei que lidar com este fato. Já perguntei aos seus contatos de outras plataformas de comunicação se tinham notícias e sempre usavam a mesma resposta: “há muito que não nos falamos”, “só nos conhecíamos online”, e coisas do tipo. Mesmo que tivesse dinheiro para ir a Stuttgart não haveria maneira de me comportar razoavelmente caso a encontrasse. O que eu diria? “Carmen Weibel, lembra de mim? Vim do Brasil para encontrar-te e perguntar o porquê de nunca mais ter aparecido nas redes sociais.” Quão idiota isso soaria? Até mesmo para nós que tínhamos uma relação íntima isso seria estupidez. Será que eu era apenas um homem “líquido” com valor puramente especulativo e temporário? Mas não faz sentido, ela está há seis meses, pelo que me consta, sem usar a mais importante ferramenta de comunicação do mundo. Quantas noites passei em claro revendo vídeos e fotos que você me mandava! Você até pensava em vir ao Brasil, Carmen. Não. Você só pode estar morta e assim seria até pior. Alimentei furtivamente uma relação e você não conhece meus sentimentos, ao menos não comigo expressando-os claramente. Não há mais motivos para que eu queira voltar à faculdade quando meu motivo de aprender o alemão era você. Talvez eu tenha me entregado demais para as facilidades tecnológicas e acabei alimentando sem querer esse suposto romance. Estou farto de viver a olhar para este computador. Olho ao mundo ao redor e só vejo uma realidade sintética. Tudo que está aqui é uma fachada.

Beneficiando-me das recomendações da terapeuta escrevo estas cartas onde procurarei entender a armadilha onde me meti. À parte minha família há poucas pessoas com quem posso me reconectar no mundo verdadeiro. Atrás delas, irei.

Com arrependimentos,
seu escritor.

II

Vivo num mundo artificial mirando a tela do computador por pelo menos 14 horas por dia. Se saio do quarto é para comer e lavar meus pratos, copos e talheres. Confesso que, agora que escrevo, percebo quão rápido se passa o tempo quando estou nesta rotina monótona e tortuosa. Acordo não sei que horas, ligo para jogar e lá despendo minha juventude… Converso com alguns colegas virtuais, por vezes leio com luz baixa, ou estudo, ou vejo um filme, mas, principalmente, jogo. E lá neste mundo sou feliz, ao menos tenho essa impressão. Este jogo é de estilo fantasioso, cria-se um personagem e vai customizando-o da maneira que mais lhe agrada. Com o passar das missões e aventuras você vai desenvolvendo habilidades especiais, conhecendo pessoas, comprando equipamentos e criando laços. E há também as cidades, por onde você passeia e se depara com os mais diversos figurões vendendo e comprando itens tal como acontece numa cidade do interior do nosso país em dia de feira. E é interessante notar — discuti este fato com alguns colegas que concordaram — que projetamos a nossa personalidade ideal em nossos personagens, como se lá fosse um mundo à parte onde você pudesse ser você próprio. Há a possibilidade de customizar a aparência do nosso boneco, dando a oportunidade de projetarmos o que consideramos belo em um personagem e, adivinhe só, nós somos esse tal personagem! Dentro do jogo não há como ser roubado, raras são as ocasiões onde você é traído ou passado para trás. E mesmo que nos prejudiquemos naquele mundo, ainda assim é apenas um jogo e não afetará nossa vida real perder um item ou experiência. A combinação de todos esses itens é o que torna aquele pequeno mundo virtual um lugar agradável para se viver, e é por isso que existem tantas pessoas jogando.

Meu personagem age com a função de suporte, ou seja, ajudo minha equipe a derrotar os monstros. Sou um bioquímico e cozinho itens que podem aumentar a força, a experiência coletada ou a vida dos meus amigos. Tomamos a iniciativa de explorar um mapa de clima glacial, que, apesar de nos oferecer mais experiência, prejudica a velocidade de nossos personagens. Morrer no jogo não é uma alternativa porque você perde muitos pontos de experiência e vai ter que jogar vinte ou trinta horas para recuperar aquele prejuízo. Éramos oito. Quando chegamos no mapa acabei percebendo que havia esquecido alguns itens de cozinha e que isso seria prejudicial para nossa aventura, mas não podíamos voltar atrás. Fiz o máximo que pude mas nosso grupo não aguentava mais, estávamos prestes a morrer sem suprimentos básicos e sem capacidade de locomoção. Até que apareceu essa sacerdotisa gentil que percebeu nossa situação e terminou curando nós todos sem pedir nada em troca. Usamos o resto da força que tínhamos para terminar o mapa e voltar para a cidade. Foi o primeiro contato que tive com ela.

Houveram outros. Três semanas após este ocorrido eu já havia a visto mais sete vezes pelo menos, e sempre acenávamos para o outro e nos ajudávamos como pudíamos. Não demorou um mês para ela se juntar ao nosso grupo e nos tornamos nove. As duas outras garotas ficaram muito contentes ao saberem que haveria mais uma mulher em nosso time. Foi assim que comecei a falar com Carmen. Falávamos de literatura, música e jogos, principalmente. Diariamente trocávamos dezenas de mensagens, mas sempre em inglês, porque era um jogo global e como no mundo comercial, usávamos a língua mais forte uns com os outros. Apesar de aprofundarmos nossa amizade quase nunca falávamos de coisas pessoais, o máximo que fazíamos era mandar fotos e vídeos para o outro. Às quintas andávamos juntos pelo mapa da cidade procurando materiais baratos para que eu pudesse cozinhar e fazer itens mais fortes ao nosso grupo. Dentro do jogo, de brincadeira, até casamos, o que fornece alguns benefícios como se teletransportar para o lugar onde está o seu cônjuge! No dia do casamento, feliz — todos os nossos colegas estavam na igreja do jogo, dá para acreditar?—, prometi que faria algo que seria bom para todo mundo; meus familiares, para mim e para Carmen. Decidi que estudaria bastante para passar na faculdade de alemão do meu estado. E por que não? Sempre fui fã de Schiller, das composições de Liszt e Wagner, de Thomas Mann e, agora, Carmen… De qualquer maneira eu entraria na faculdade, minha mãe ficou feliz e eu passaria mais tempo aproveitando o mundo real.

Ah, vida real! Troquei a crueza das relações sócio-reais por um mundo que não existe. Hora de consertar este deslize na jornada de minha vida. Um dia você conhece um certo jogo e faz amigos dentro dele. Após uma semana você não consegue mais sair de dentro do jogo, você se torna seu personagem. Você acorda para viver as experiências do personagem, encontra-se com os amigos dele e aumenta sua experiência. Em dois ou três meses você jura que é aquele boneco, sua vida é destinada toda para melhorar as capacidades dele, você não é mais você, suas ações não são para o seu próprio bem, mas, sim, para o bem de algo inexistente. Você está alimentando um jogo, alimentando a imaginação do cérebro de que você é aquilo. E um dia, — e esse dia sempre chega —, as pessoas vão desistindo de jogar, a experiência não é mais tão divertida e seus amigos vão se desligando daquelas aventuras, um por um. Agora eu me encontro sozinho dentro de uma tela com um personagem forte e rico. No entanto, eu mesmo, no mundo real, perdi vários anos da minha vida, perdi dinheiro, perdi saúde e oportunidade. E este mundo real, que por vezes parece até fantasioso, continua sendo um mistério para mim, mesmo após 25 anos de experiência.

Pensei muito durante esses dias, e o melhor método para fazer esse desmame é me distanciando da tecnologia. Eu a uso para o comodismo e para o meu próprio mal. Não quero chegar aos 50, sem saúde, percebendo que nada do que eu vivi foi real. Esse mundo é melhor do que meu jogo; os monstros são outros, a experiência é outra. Outros desafios. Tudo mais profundo e interessante. É hora de evoluir.

Com esperanças,
seu escritor.

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