Trauma

Trauma é simplesmente o caos intenso percebido pela pessoa que o sofreu. O fenômeno do caos pode afligir por meios físicos e por meios espirituais. Este que vos narra, por exemplo, foi mordido por um cachorro feroz quando pulava o muro da casa da namoradinha para vê-la às escondidas, há muitos e muitos anos. A partir desse dia sempre fiquei desconfortável com a presença de um cachorro ao meu redor e, mesmo quando não havia, eu policiava o ambiente, porque na cabeça do traumatizado o caos pode vir até mesmo do nada. Pode-se dizer que esse desconforto é uma ferida que carrego comigo para sempre. Em relação ao trauma, acho que o cérebro humano sofre uma carga tão súbita de estímulos que acaba não sabendo processar normalmente a informação, e toda vez que ela volta aos, digamos, pensamentos da superfície, à consciência normativa, ela acaba desordenando o humano que carrega esse caos intenso.

Mas nesta história temos uma criança. Gerônimo. Ele sentou no banco do parquinho da escola admirando as rápidas transformações das nuvens que dinamizavam aquele céu azul vigoroso do meio da tarde. Recebeu, momentos antes, mais uma carga de informações difíceis de processar, o tal do trauma. Olhava ao céu como que esperando resposta, pois aquele azul, sempre vívido, nunca lhe renegara a companhia. E havia também aquele sopro estranho no coração que só aparecia em dias que ele queria chorar. O primeiro grande trauma a gente nunca esquece.

Nenhum garoto da turma se sujeitou a sentar perto de Gerônimo. Quando aparecia nos corredores, na hora do recreio, os círculos de conversação se espalhavam e todos se amedrontavam. Criança parece não receber bem algo muito diferente do costumeiro. Foi só na primeira série que se acostumou com a solidão e não se importava mais em ser o “monstro” evitado por todos do colégio. Até a terceira série ele estava em paz com o amor de seus pais e com o lazer provido por seus bonequinhos, mas aí começaram as agressões. Meninas e meninos começaram a prejudicá-lo propositalmente numa atitude semi-robótica, como se pressionados pelos mais violentos da escola a fazer o que queriam como forma de aceitação social. No refeitório quase toda semana voava resto de comida em sua mesa; casca de banana, pote de iogurte, às vezes acertando-o diretamente. Faziam furos em sua mochilinha quando ia ao banheiro e num episódio triste, escreveram sob seu nome uma carta recheada de palavras sujas a uma menina asperger da sala ao lado, a única que até aquele momento ainda conseguia olhá-lo sem sentir repulsa. A atitude vil das crianças foi tão bem bolada que não teve como escapar das acusações, mesmo com alguns professores insistindo em sua mansidão. Os pais dos alunos já não queriam o menino por perto. Ele era, sim, diferente. Num lugar onde todos possuíam pele alva e cabelos loiros e longos ele se destacava pela coloração escuríssima de sua pele, sobretudo por ter traços mais finos ainda do que os de qualquer pessoa da cidade, como se estivesse há milhares de anos adaptando inconscientemente o próprio fenótipo ao clima glacial. E desde aquela pura época já era mais alto que a média dos garotos da classe, havendo inclusive professores menores em tamanho. O sobrenatural em si, o fenomenal, eram aquelas ametistas no lugar dos olhos. Seus olhos eram de um roxo vívido que causava assombro a todos em seu caminho. Médicos, cientistas no geral, ninguém sabia a razão, mas alguns místicos cravavam que ele era descendente dos primeiros homens da terra, os gigantes de olhar purpúreo dos mitos. Para piorar, Gerônimo tinha tiques muito estranhos a cada meio minuto, mas estes a ciência já compreendia e chamava de tourette.

O Amor

Naturalmente, para evitar danos maiores, cresceu, estudou e amadureceu ao redor de um grupo seleto de pessoas, dentre elas, curiosamente, Regina, a menina asperger dos tempos de escola; a situação do passado já estava resolvida e Gerônimo era uma boa influência intelectual, diziam os pais dela. Juntos eram como duas flores delicadas de um florescer esplendoroso, a família até concordou que seria bom que se noivassem, e a eles não havia nada que pudesse impedir. Jogavam xadrez, liam bons livros, nadavam e todos os dias trocavam palavras amenas com o outro. Por serem de famílias com situações economicamente confortáveis viviam uma bela vida de cultivo à inteligência, mas ela nunca escondeu o desejo de se tornar repórter, já que ostentava uma retórica invejável. Na verdade já até se incomodava de ficar tanto tempo em casa depois de formada na faculdade. Ele não gostava de sair de casa e repudiava a ideia de ter um emprego; não só por ser diferente e assustador de aparência, mas porque não se via gastando as horas mais preciosas da sua manhã com um trabalho quase sempre desnecessário. Mas, se fosse para ser algo à sociedade, acho que ele gostaria de ser um poeta. Já que escrevia e gostava tanto de mirar os céus. Um daquele tipo que dorme às quatro da manhã após uma noite regada por vinhos finos e versos de virtude. Talvez um Byron. Não. Certamente um Wilde.

Regina enfim realizou o sonho de se tornar repórter e passava horas trabalhando e viajando. Uma pequena chama de ciúmes começou a ser cultivada na alma de Gerônimo. Ela achava engraçadinho responder as dúvidas sinceras de ciúmes, até ingênuas, dele, e achava importante dizer com firmeza que o amava e somente ele. Quem deixa, num erro fatal, a semente da dúvida se expandir dentro do coração, sabe: dizer que ama não é suficiente. Ela tentou, mas não compreendia como eliminar as inseguranças de seu marido ingênuo. Ele desconfiava e jurava ter sinais para tal desconfiança.

Em um domingo de páscoa, algumas semanas mais à frente, Regina descobre que aguardava um bebê. À parte a preocupação natural devido às condições fenotípicas do marido eles ficaram muito contentados com as boas-novas. Tudo que se falava a partir de então era sobre os planos para com o fruto especial da relação de ambos.

Sonho

É curioso como na vida dos humanos de destino nobre é natural o surgimento de um contratempo no instante mais agradável e pacífico, como um sinal lírico de que precisamos ter consciência sempre da dualidade das coisas, do jogo de reações opostas que formam a beleza da existência. Ao menos assim foi como infelizmente se procedeu a sorte em minha vida. Lembro-me de quando minha filha fez sua primeira apresentação no balé municipal, e que apresentação mais doce!  Em seguida fomos comemorar o êxito no terraço de nosso prédio: eu, sua mãe, suas companheiras de dança e seus responsáveis. Foi uma noite divertida, e para ela, no alto dos seus nove anos, de acordo com suas palavras, tivera sido o melhor dia de sua vida. No alto da noite nós a colocamos na cama e dissemos palavras doces até que entrasse em estado de repouso. Mas no início da manhã ouvimos um grito pesado de dor e, após averiguação, ela me disse que havia um homem muito alto e com olhos de cor violeta a observando no sonho, mas era um sentimento tão real que a amedrontava. Ela ficou tão impressionada com o homem do sonho que não conseguia mais dormir ou usar o banheiro sozinha, e isso durou até seus quatorze anos de idade. Ela nos jura ter sido um sonho indistinguível da realidade. Após as preocupações iniciais nos aborrecemos e decidimos levá-la ao médico da consciência. Ele nos disse que o impacto foi tão grande que ela havia guardado as lembranças do dia num local profundo do subconsciente, como um mecanismo de proteção, e que não havia forma de acessá-las todas de uma vez. E assim, como uma caixa, de Pandora, onde você abre e colhe uma desgraça de cada vez, ela aprendeu a lidar e enfrentar seus demônios internos. É que, traumatizados, temos de abrir a caixinha do subconsciente pouco a pouco e fechar logo para que as mazelas não saiam todas de uma vez. Como ferramentas em uma caixa, abrimos gentilmente, colhemos a primeira que aparecer, aprendemos a manuseá-la e guardamos cuidadosamente. Nos impactos da mente, no entanto, esse processo pode demorar semanas, meses, anos ou uma vida inteira.

No mais alto cume de felicidade e contentamento acontecera algo na vida do casal dessa história e assim começara o fim.

Comemoraram o domingo de dia dos namorados em um parque lotado de amantes com suas toalhinhas dispostas ao chão e suas cestas de comidas frescas, amantes que se acariciavam, sorriam, cantavam e aproveitavam um belo dia ameno, não diferente do que fez ali Gerônimo e Regina. A barriga dela já se encontrava em proeminência e não era raro passar uma mulher sorrindo a parabenizá-los pelo futuro filho. Gerônimo sempre usava óculos escuro quando tinha de sair de casa para este tipo de convenção social. Achava um aborrecimento necessário. E depois de um dia romântico, mas cansativo, voltavam de mãos dadas para onde estacionaram o carro. No atravessar de uma pista, abrupto, como se vindo do nada, rasga o caminho velozmente um carro antigo e desgovernado. Foi só o tempo de Gerônimo empurrar Regina para frente e sofrer o impacto violento do veículo por si só. A partir daqui não havia mais a consciência. Não havia dor ou ofensas. Não havia amanhã. Levaram-no ao hospital. Foi um grande trauma na vida de Regina.

Sonho II

Sua visão ainda está embaçada e os olhos só conseguem focar nos dois vultos embaçados à sua frente. São seus pais, emocionados e trêmulos pelo despertar do filho no hospital.  Pois se sentou no leito com as próprias forças, alegando estar mais saudável do que nunca. Era como se não houvesse ocorrido acidente nenhum. Era como se tudo houvesse sido um sonho. Ele sabia o que ocorrera naquele fatídico momento mas não lembra dos detalhes. Como se o subconsciente engolisse para o fundo de seus mistérios toda a informação do momento do acidente.

“Meu filho, você ficou em coma por um ano!”, foram as palavras do pai. Na cabeça de Gerônimo passou um filme trêmulo de tudo que acontecera em vida. Sua infância rejeitada por todos que não fossem seus pais. A aceitação de sua condição, que veio junto com a adolescência, e enfim a consolidação da amizade com Regina. Regina! Agora ele pensava bem, lembrara do rosto e da voz de sua Regina. Lembrara de sua gravidez e dos planos que fizeram para a vidinha que viria. Se fosse homem seria Davi, por vontade da mãe. Se mulher, seria Margarida, em razão de todas as grandes mulheres da literatura que o pai apreciava. E depois de assimilar razoavelmente aquela informação concluiu que, com este tempo, o filho já havia nascido.

“Um ano… E Regina? E meu filho, onde eles estão!?”

Os pais se entreolharam. Não estavam preparados para o retorno de consciência do filho e não sabiam como responder adequadamente naquele delicado momento. Só disseram, de início, que estava bem e cuidava do bebê, em casa. Disseram que era um menino e que logo ele iria poder visitá-lo pela primeira vez. Durante a semana de observação e fisioterapia intensa, só disseram isso, e quando ele perguntava sobre a esposa, ou pedia para falar com ela pelo telefone, falavam somente que ela estava ocupada e vivia cansada, e que não sabia de sua recuperação. Naturalmente ele percebeu que algo não estava indo certo.

Na semana seguinte, já no carro pronto ao retorno à casa, seus pais, dirigindo, diziam que a vida agora estava muito diferente e que havia uma razão para não contarem sobre ele a Regina e vice-versa. Gerônimo estava aflito com as palavras de maciez e preparação de seus pais. “Agora te levaremos para a casa de Regina, tenha calma.”

“Casa da Regina? Você não quis dizer nossa casa?”

Trauma

Chegando na vizinhança onde costumava chamar de lar, já suando frio, prepara o coração para o pior. Achava que o filho nascera com deficiência, algo do tipo. Também pensou que Regina pode ter sofrido consequências que a deformaram, com o parto, ou até que ela já havia casado com outro, devido ao tempo de coma. Os pais esperaram no carro, falaram para o filho que estariam ali dando a privacidade propícia ao casal e que qualquer coisa era só chamá-los.

Bate na porta. Alguns segundos depois ela se abre. Regina era uma mulher completamente diferente em aparência. O cabelo agora era ruivo. Estava levemente corpulenta. No rosto, as marcas de cansaço. Mas também se assustara com a imagem que via em sua frente, tanto é que deixou a mamadeira que estava em sua mão cair sobre chão. Admirava aqueles repentinos olhos purpúreos e intrigantes, agora, em um homem barbudo que costumava chamar de noivo.

“Gerônimo. Seus pais não me falaram que você acordara. Nossa, esses olhos!”

“Regina, meu amor… O que aconteceu com você nesse tempo todo?”

Intrigados, se abraçaram. Ele derramou-se em lágrimas por alguns segundos e logo se recompôs, entrando na antiga moradia em convite de seu amor. Então ele percebera que ela não estava sozinha. Havia um calçado masculino na porta e duas regatas espalhadas pela sala. Na geladeira uma foto de Regina com um homem, sorrindo. E por fim assustou-se quando viu o menino que brincava na sala.

“Deve ter sido por isso que seus pais não contaram nada sobre mim para você. É, Gerônimo, eu tive que seguir minha vida. “

“Não estou pedindo por desculpas. O Davi… a cor dele.”

“Não há nenhum Davi. Algumas coisas ficaram obscuras entre nós. Seu nome é Henri. Vou pegar um copo d’água, Gerônimo, por favor, acalme-se.”.

Henri era um menino branco de olhos negros, embora serem de pele escura Regina e também Gerônimo. Não havia um traço sequer que lembrasse os dele. Em seguida ela retorna trazendo o noivo, que era parecidíssimo com o garoto.

“Esse é o pai do Henri…  Bem, é uma longa história.”

Gerônimo então cumprimenta-o e após longa conversa, se entendem. Havia um episódio de traição antes mesmo do acidente e, deste episódio, nasceu o menino.

Quando duas pessoas se conectam de maneira metafísica através de algum trejeito material, seja um sorriso, ou uma troca de informações, a isso chamamos amor. Não há maneira mais contundente para explicar o principal dos fenômenos humano. A paixão, diria eu, é quando arde um fascínio súbito por algo concernente ao objeto amado, diferente do amor, que os liga por questões incompreensíveis. A paixão liga por questões necessariamente orgânicas. Por ambos é possível travar duras batalhas físicas e espirituais. É que paixão e amor nos tornam um pouco mais nobres mesmo que os anos passem. Não sabia a razão de Regina ter desistido tão súbito do amor por ele. Era súbito para ele, porque, mesmo depois de quase um ano, ainda a amava e não desistiria da história que teve com ela por nada nesse mundo. Talvez fosse o tempo, sim, o tempo. O tempo passou para ela, cada minuto, cada segundo, foi presenciado por ela, e a dureza, ou melhor, a vileza, da vida, pode ter feito com que seu amor se transfigurasse na figura de um outro homem. Seria assim se ela não houvesse o traído bem antes do fatídico acidente. Ele ficou um ano inteiro inconsciente. Na cabeça dele, porém, era isso e nada mais que isso, mesmo sabendo que fora traído antes: a transfiguração do sentimento por ele para um outrem. E era esse fenômeno, precisamente esse fenômeno, que afligia o coração do homem de olhos purpúreos. Ele não sabia quais regras regiam a transfiguração do amor e da paixão, e escapar de suas mãos a única pessoa que por ele nutria um nobre sentimento machucava seu coração como nos tempos de sofrimento escolar.

Após compreender os fajutos motivos do casal, algo como meia hora depois, despede-se, atordoado, e entra novamente no carro de seus pais. Sua visão está um pouco embaçada e as lágrimas já rolam de seu rosto. Sua mãe o conforta com um abraço e seu pai, à sua maneira, diz que não há com o que se preocupar porque seus pertences já estavam todos em seu verdadeiro lar, que tudo fora transferido durante o coma. Já de noite, no mesmo quarto que costumava viver durante a infância, Gerônimo dormiu tentando se recompor das tantas informações que recebera naquele dia. Descansou para recomeçar então sua nova vida.

Deliberatio

A consciência desperta, perdida. Sabe que está acordado mas tudo é escuro e o ar é gélido. Estapeia-se pensando ser um sonho, mas não era. Grita e ouve sua voz ecoar em vão por muitos e muitos metros adiante. A sensação, mesmo andando, é a de que está parado. Até que ouve uma voz firme, clara, pairando acima da escuridão: “Você finalmente despertou”.

“Socorro, me tira daqui, estou com muito medo.”, gritava em desespero.

“Não há razão para temer. Aquiete-se, aqui é um lugar seguro e estou aqui para te ajudar.”

“Onde estou? Leve-me de volta, imploro!”, disse Gerônimo.

“Você está no lugar mais importante do mundo, o Deliberatio.”, falava a voz desconhecida, firme, como se não houvesse sentimento algum. “Você deve ter muitas perguntas, especialmente sobre sua fisionomia. É comigo que suas dúvidas serão sanadas; no devido tempo, porém. Gerônimo, meu Gerônimo… agora precisará escolher o caminho para seguir, afinal, toda realidade é a mobilidade do tempo, que se desdobra a partir de seus desejos e esforços mais nobres.”

“Caminho? Do que você está falando? Onde estão meus pais?”, apavorava.

“Você não entende? Bem, os grandes entendem… todo o destino será conspirado a partir dos desejos profundos. Não é óbvio que se você trabalha verdadeiramente num desejo ele se tornará verdade?”

“Que merda você está falando? Fui deixado pelo meu amor apesar de ter me esforçado para amá-la sempre. E quantas pessoas não morrem sem cumprir as grandes e nobres ambições de seu corações?”, Ele retrucava em êxtase a voz misteriosa.

“Morrem?” A voz, expressando finalmente sua primeira reação, colocou-se a rir em tom de deboche. “Gerônimo, o que é a morte? Acha que isso realmente existe?”

“O quê?”

“Um dia entenderá, Gerônimo. Deixarei a fortuna explicar no devido tempo. No devido tempo!”, e continuou: “mas agora terá de escolher presto um caminho. Anda!”

“Ainda não entendo essa história de caminho.”

“Quer voltar a viver ou deseja finamente acordar do sonho?”

“Que sonho? Pois quero viver e acordar desse pesadelo.”

“Alguns de vocês já haviam percebido há muito tempo. O sonho é uma ferida, Gerônimo. No seu idioma por exemplo uma ferida pode ser, nem sempre é, um trauma. Mas o trauma sempre é uma ferida. No idioma dos alemães o sonho chama-se der Traum. Como se o sonhar também fosse um ferimento. Você está traumatizado? Você está sonhando? Você está ferido? Não importa caso você peça para acordar.”

Gerônimo, desentendido e amedrontado, derrama suas lágrimas.

“Não estou entendendo. Eu imploro, só quero voltar para minha casa. Abraçar meus pais. Ler meus livros. Ir ao parque. Mesmo sem a Regina a vida é muito boa. Eu quero amar. Por favor, liberte-me!”

“Tudo bem. Mas lembre-se que a morte é um grande alívio para seu sonho de viver. É o grande alívio que cura todas as feridas. Veremo-nos em breve e assim conversaremos sobre os enigmas de sua vida, Gerônimo. Feche os olhos e respire fundo. Seu caminho foi decidido. Você despertará novamente.

Trauma II

Sua visão ainda está distorcida. Os olhos só conseguem mirar os dois vultos embaçados à sua frente. São seus pais, emocionados e trêmulos pelo despertar do filho no hospital.  Pois se sentou no leito com as próprias forças, alegando estar mais saudável do que nunca. Era como se não houvesse ocorrido acidente nenhum. Era como se tudo houvesse sido um sonho. Ele sabia do que ocorrera naquele fatídico momento mas não lembra dos detalhes. Como se o subconsciente engolisse para o fundo de seus mistérios toda a informação do momento do acidente. Ele não se sabe em qual realidade está e parece confuso sobre o que é real ou não. O medo é implacável, mas logo recebe um abraço reconfortante dos próprios pais.

Uma médica o aborda como se tudo estivesse normal, mas não entendia se delirava ou se finalmente despertara do pesadelo pós-acidente. Ela diz que os exames já foram feitos e que ele já deveria estar vestido com suas roupas cotidianas a voltar à casa, e os pais agradecem, aliviados.

“Filho, não vá se assustar, mas temos uma pequena homenagem para você. Uma surpresa, diríamos.”, e entreolharam-se.

“Surpresa?”

Os pais trazem a roupa e para o espanto de Gerônimo era a mesma que usava no dia do acidente, de cima a baixo. Não havia um rasgo sequer ou sujeiras naquela vestimenta. Veste mesmo assim, estranhando tudo, esperando que as coisas fossem explicadas na saída do hospital e durante os dias. Seus pais agradecem a cada médico que veem pelos corredores e todos despedem-se também do rapaz. Por algum motivo aquilo enche o coração dele de contentamento. Na saída do corredor final, vê um pôster com os dizeres ‘não é o lugar onde esperamos estar, mas o lugar onde precisamos estar.’, e acaba se contentando, concluindo que esse era um ótimo slogan para hospital.

“Agora entraremos na sala de recepção, Gerônimo. Sua surpresa está bem aqui. Está pronto?” Diziam os pais, e os médicos atrás sorriam esperando sua reação.

A porta abriu-se e seu coração não aguentou o que via. Pessoas desconhecidas, cerca de vinte delas, sorrindo de maneira indescritível, talvez diabólica, talvez sarcástica, em sua direção. E todos com a mesma coloração de pele da sua. Traços semelhantes. Olhos violetas. Todos aplaudiam mantendo esse sorriso desfigurado no rosto. Batiam palmas e falavam: “você perdeu a grande chance!”, “você deixou o verdadeiro ouro escapar de suas mãos, rapaz!”, e apontavam em sua direção e gargalhavam todos.

Ele caiu de joelhos, assustado.

Ferida

“Os batimentos caíram. Vamos reanima-lo para já!”

Horas depois, felizmente, ele desperta. Dessa vez com o coração leve. Na mesma sala do leito de antes, mas não havia ninguém. Tudo estava mais doce em suas percepções. Mais ameno. Ele não entendia, mas se contentava. Olhou para o sofá e viu, jogada sobre o couro claro, uma ametista cintilante que se destacava perante todo o quarto. Era do tamanho de um punho. Não compreendia a razão de tal fortuna estar ali atirada. Sabia, porém, que tudo parecia estar alinhado e em paz. A pedra simbolizava uma dor imensa já superada e transformada em joia.

Pedro Martins Lopes, Setembro de 2021.

3 comentários sobre “Trauma

  1. oitmo conto man gostei bastante, a historia e uma reviravolta, entre o que e a verdadeira realidade ou o que sonho ou apenas ou trauma o que o cerca, tanto da sua infancia, ou de sua ex-esposa, ou do segundo desperta o qual eu ainda tenho que reler e entender, achei massa pakas, queria saber como que foi a faculdade de regina, se ela conheceu o cara la ou não, e já que ela tbm sempre reafirmavao seu amor por ele e ele semprre desonfiado, pq que regina fez tao coisa ? entraho kkk ao meu ver, queria saber mais, e aquele dialogo do sonho tbm interessante quem era aquele ? gostei, tem umas palavras dificeis em kkk mas é isso, deixando minha marca aqui “lol”.

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