Anjo apontando aos céus

Haviam estes velhinhos que sempre se ocupam com jogos nas praças do Brasil, seja um xadrez, ou damas, carteado, dominó… e nessa praça em específico haviam muitos pombos, além da imponente estátua centralizada bem no meio do lugar. Uma escultura de estilo clássico, imponente, de um anjo que apontava ao céu com sua mão direita enquanto retirava do solo seu pé esquerdo, como se estivesse movendo-se para lá. E era uma manhã brilhante, quente, onde o sol esmaltava o cinza daquela estátua de maneira tão bela que parecia ser mesmo coisa divina. Os trabalhadores passavam de lá para cá com seus chapéus e jornais, apressados, olhando ao chão ou à frente, de maneira costumeira que talvez esquecessem que logo ao lado deles havia uma construção tão magnífica que apenas o olhado poderia rechear o coração para mais um dia de trabalho. Ignoravam; talvez não por esquecimento, como suponho ignorando a vileza e a simplicidade dos corações humanos, afinal, nem todo mundo nasceu pra ser poeta. À parte isto espero que os trabalhadores não se esqueçam que também, como os poetas, são produtos da grã beleza irredutível. Aquela estátua poderia guiar a cerne de toda uma comunidade e por isso invejo quem mora próximo à praça.

Toda vez que saía do metrô, com meu jornal e meu chapéu, contemplava a escultura central e admirava os velhinhos. Por vezes alguns se sentavam logo à frente da obra, em carteiras escolares procurando retratá-la a lápis sobre o papel, com suas perninhas cruzadas dando requinte de intelectuais e entendidos. Num sábado parei ao lado deles e perguntei, pueril, o que estavam a fazer, já sabendo que pintavam a grande composição escultural da praça. Perguntei porque queria me aproximar, percebendo então que eles não estavam fazendo aquilo por brincadeira; eram rascunhos de pessoas que certamente possuíam estudo na matéria das belas-artes. Que grandiosidade, que fantasia! Elogiei e fui à minha cafeteria meditar sobre a vida daqueles senhores. Então era assim que passavam as manhãs? Porque pensei que eram atividades amadoras apenas para passar o tempo. Por um lado eu não me enganava; o que nessa vida não é feito para passar o tempo? Ele está acima de nós, talvez tenha alguma coisa a ver com a mensagem que o escultor quisera passar compondo o anjo apontando aos céus. Imaginei que também não seria páreo aos velhinhos do xadrez, nem aos velhinhos do carteado. E se houvessem velhinhos da literatura, da música, do que quer que fosse, um trabalhador engravatado como eu também não faria frente a eles. Eu, com minha vida mediana e emprego mediano, gostaria muito de ter virtuose em algum assunto, e sempre me imaginei um velho requisitado e bem visto pela sociedade; famoso, habilidoso, bonito… E talvez eu tenha tudo que os velhinhos quisessem ter mais uma vez: juventude. Por que não simplificar minha vida e cultivar virtudes artísticas? Quem sabe eu poderia ter algum velhinho como mestre. Posso estar sendo leviano, mas prefiro muito mais passar meus dias ao redor daquela estátua, contemplando-a, do que ter uma grande casa, ou um grande carro. Ou a chamada “grande vida”, aquela onde temos uma carreira, um cachorro, nos vestimos de acordo com a tendência, etc. Uma grande paixão destrói qualquer ideal de conforto e luxúria.

Continuam os velhinhos diariamente concentrados em seus ofícios, na praça, e continuam os trabalhadores a andarem retos, sem olhar aos lados sequer. O anjo apontando aos céus continua a diferenciar os trabalhadores dos que aproveitam a vida.

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